O cargo<br>e a descarga
Em geral, quem assume um alto cargo público dilui-se nele e desaparece como pessoa que se candidatou à função que, entretanto, exercerá com ou sem competência (sendo a competência o cumprimento das responsabilidades previstas). Isto num bosquejo.
O «discurso de Ano Novo» do Presidente da República parece selar o retrato que ficará de Cavaco Silva na «galeria presidencial» do País: um Chefe de Estado que não cumpriu o dever essencial de «defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição», colocando-se não apenas ao lado, mas abertamente ao serviço dum Governo numa coligação periclitante de direita que ele, e só ele, tem mantido em mandato, não usando o seu poder presidencial de o demitir.
Tudo isto – já amplamente sabido – ficou lavrado no supra discurso, que apenas se distinguirá do proferido pelo Governo na pontuação ou no léxico.
As oratórias voltam a descrever um Portugal que não existe e que nem dos Pequeninos pode ser – que esse, embora também rústico e ridículo, continua em Coimbra.
Nesse país de faz-de-conta ambos os oráculos de Cavaco e Passos garantem que o desemprego diminuiu, que o crescimento económico se desenvolveu (até aventam números, a quantificar), que as exportações crescem, o consumo interno aumenta e a dívida, embora crescendo colossalmente, apresenta aqui e ali umas décimas promissoras.
Ao lado, Nuno Melo, pelo CSD e com a finura peculiar, propagandeia a todo o pano que este ano «o povo» «tem de escolher» entre quem em 2011 «lhes trouxe a troika» e quem em 2014 «os libertou», incólume ao ridículo do que dizia e à desfaçatez de usar o menino Jesus para acarretar cartazes eleitorais.
Protagonizar altos cargos públicos tem a sedutora vantagem de se poder confundir a autoridade do cargo pelo cargo com autoridade e é sempre aí que os burrinhos dão na água, com a generalidade dos governos a fazerem o que entendem e sem peias, com o excesso inconstitucional deste de Passos/Portas, que desorganizou a ordem democrática, os direitos dos trabalhadores e do povo, os serviços sociais do Estado – que também desacreditou.
O trio responsável desta situação é Passos, Portas e o Presidente Cavaco. Todos têm usado à exaustão a solenidade dos cargos que ocupam para emitir de si próprios imagens segregadas nos formalismos do poder. Debalde. Nestes quase quatro anos, a repulsa popular cresceu a manifestar-se nas ruas e locais de encontros oficiais e todos eles, há largos meses, só escoltados circulam pelo País. Deixaram de poder esconder-se atrás dos cargos e só lhes resta, mais cedo ou mais tarde, ser descarregados do protagonismo nacional, sumindo-se no caruncho dos desastres pátrios.